A primeira
vez que fiz um artigo de opinião sobre questões da política na ilha Graciosa
abordei o tema do modelo de visitas estatutárias que o socialismo açoriano
enraizou nos Açores e que em muitos aspectos mais se assemelham a passeios dos
senhores feudais pelas terras do seu dote distribuindo benesses e ouvindo os
lamentos.
Naquele
tempo - há mais de 10 anos, e já quase com outros 10 anos de partido socialista
a governar a região - tive direito a uma espécie de resposta à minha opinião
por parte do PS da Graciosa, já ao tempo também ele sempre preocupado em
assumir uma posição de força perante quem se atrevesse a criticar o que quer
que seja ao regime instalado no poder, a que se somava a extrema reverência
àqueles senhores que estavam prestes a desembarcar na ilha e para quem se
tinham limpado bermas de estrada, caiado muros e edifícios públicos, e procurado
silenciar críticas ou não fossem eles, os anunciados visitantes, pensar que na
ilha o seu poder não estava representado de forma eficiente.
De lá para
cá a mentalidade do poder pouco ou nada mudou, é a mesma azáfama e modelo de
visita. É a mesma rotina e o mesmo princípio. São os mesmos de sempre a
abeirarem-se da mesa e das migalhas, e sem o pudor que até o tempo levou, são
sempre os mesmos a saborear o tributo prestado com palmadinhas nas costas e
gargalhadas de simpatia ou a alimentar o escárnio pela opinião diversa, a que
se juntam muita hipocrisia e acotovelamentos.
Mais uma
vez, o PS da Graciosa prepara-se para receber o seu Governo, e de entre o
habitual reafirmar de promessas retomam-se, no final de mais uma legislatura,
as promessas da legislatura anterior, e finalmente concretizam-se, para alguns
tarde demais, alguns projetos de mais obra pública que a ilha ansiava ter tido
quando foram prometidos há uma década.
Mas mesmo
assim são motivo de orgulho para os reverentes do poder e, pasme-se, ainda vão
provar que cumprem com o que se comprometeram, mesmo que com 10 anos de atraso!
Se bem que
não se esperam primeiras pedras para projectos em que só os próprios
beneficiários, mais uma horda de sempre concordantes e solícitos credores de
ideias fantasiosas, acreditam, já se sabe que este será o ano da visita
estatutária preparatória das próximas eleições regionais de 2016 e, portanto,
lá irá saltar o caderninho de recados para desejos mais íntimos ou,
simplesmente, para fazer sonhar alguém que, ingenuamente, ainda acredita que
com esta governação se vai a algum lado.
Para mal dos
nossos pecados, mesmo dos que não merecem penitência, também há quem com
orgulhosa velhacaria ache que tem o dever de beneficiar de uma atenção do poder
para desenrascar uma qualquer trapalhada ou um qualquer assunto que correu
menos bem e que agora, em tempo de votos, vale tudo para mais um devaneio pois
a política do betão ainda faz sonhar candidatos a qualquer coisa.
No final
ficam os graciosenses, que da visita pouco se importam, pois já a conhecem
muito bem e já sabem no que vai dar.
Já deu para
ser ilha da coesão, que já ninguém sabe o que é e para que serve, já deu para
ter planos de desenvolvimento de todos e mais algum sector da economia. É ilha
reserva da Biosfera mas, enquanto continuar a ver-se
mandada por um poder que vive na estratosfera, as visitas governamentais
continuam dirigidas a um pequeno grupo que ora se senta na mesa do repasto, ora
se incha com as migalhas que caem.



quarta-feira, setembro 02, 2015
Rádio Graciosa
