A felicidade geral com a melhoria de
alguns indicadores económicos nos Açores, com destaque para a
diminuição do número de inscritos nos centros de emprego, não
consegue, infelizmente, ofuscar uma realidade económica e social nos
Açores que devia envergonhar governos que, instalados há duas
décadas nos destinos dados a milhares de milhões de euros, se
limitaram a manter um regime que perpetua situações de pobreza e
níveis de desigualdade insustentáveis.
Nessa medida, quando a cada momento
avaliamos o desempenho de um regime político com duas décadas, as
análises conjunturais feitas em ciclos marcadamente eleitoralistas
acabam por confirmar que o modelo apenas resulta para uma classe
dirigente, demasiadamente agarrada ao poder e viciada em manter
dependências ou criando-as para sua satisfação partidária.
No presente, há resultados positivos
em alguns indicadores económicos directamente relacionados com a
nova realidade nas ligações com os Açores e com a redução de
impostos anunciada em 2014 e concretizada em meados de 2015.
Não sendo especialista na matéria, é
do senso comum que, numa análise simplista, a economia rege-se por
expectativas e assim como um anúncio de aumento de impostos dentro
de seis meses começa a fazer efeito na economia desde que se preveja
esse aumento, também um anúncio de baixa de impostos, aliado a uma
projectada concretização de um novo modelo de ligações com o
exterior, criam um clima económico favorável potenciando, desde
logo, alguma recuperação de alguns indicadores.
Veja-se que, no caso dos Açores, até
antes do novo modelo de ligações aéreas entrar em vigor, a SATA e
TAP, únicas companhias então a voar para os Açores, logo começaram
em campanhas e reduções de preços procurando garantir mercado
antes da concorrência, por isso não é preciso saber de cor o
manual de Samuelson ou outro brilhante economista para perceber que
as coisas funcionam simplistamente assim, na ditadura das
expectativas.
Esses resultados conjunturais são
obviamente positivos e isso mesmo não nos afasta de um olhar
verdadeiramente interessado na realidade dos Açores e nos resultados
que, não sendo conjunturais, definem a forma como perdemos muito
dinheiro e tempo a alimentar um regime esgotado no seu próprio
modelo de poder.
Porque a realidade dos Açores de há
muito tempo é a região não deixar a cauda dos indicadores do país
no campo do desenvolvimento humano e no combate à pobreza e
desigualdades. E onde se registam melhorias, muitas vezes, as outras
regiões conseguem melhorar ainda mais, deixando-nos novamente lá
para trás.
Podemos reduzir conjunturalmente um
desemprego ainda escandalosamente elevado, mas se olharmos a que 22
900 crianças e jovens dos Açores recebem o abono de família que,
recorde-se, num dos PECs de Sócrates passou a contemplar apenas
aqueles agregados com rendimentos mais baixos, se não ocultarmos que
50 mil idosos recebem em média menos de 350 euros por mês, ou seja,
mais de 100 euros a menos do que é considerado um rendimento abaixo
do limiar da pobreza, e se não nos perdermos em fabulações quando
notamos que 70 mil açorianos estão isentos de taxas moderadoras por
insuficiência económica, ou se tomarmos consciência de que no RSI
os Açores têm o triplo da média nacional de beneficiários deste
apoio social, percebemos imediatamente que há muitas conjunturas que
podem ajudar, mas temos de querer, verdadeiramente, mudar esta
realidade.



quarta-feira, julho 15, 2015
Rádio Graciosa