José Berto Nascido em 18 de Dezembro de 1933 na então freguesia da Praia
da ilha Graciosa, frequentou o Liceu de Angra e, mais tarde, concluiu, com
distinção, o curso de piano no Conservatório Nacional de Lisboa.
Depois de concluir a sua formação, José Berto, imigrou para os Estados
Unidos onde trabalhou e formou família de onde teve 2 filhos. Mais tarde
separa-se da mulher e regressa à Ilha Terceira onde exerce a profissão de
professor.
Entregou-se à música de alma e
coração, tendo exercido actividade docente em Angra do Heroísmo e na Praia da
Vitória. Nos anos 50 e 60 do século passado, fez parte da Orquestra Filarmónica
de Angra e foi presença assídua nos Serões Músico-Literários nas Festas de São
Tomás de Aquino, no Seminário de Angra do Heroísmo. Privou de perto com gente
da cultura angrense, como o investigador João Afonso, o poeta Emanuel Félix, ou
o pintor Rogério Silva. Também se dedicou ao teatro e à poesia e, sobretudo, à
boémia… Embriagava-se de vida e costumava dizer: “A noite da boémia tem que ser
verdadeiramente sentida, gozada, amada”.
Já então o José Berto era um
nobre vagabundo, desbocado e desprendido dos bens materiais, dilemático e
dialéctico, boémio e insolente, fumador feroz, filósofo de barbas e rebeldias…
Temperamento de génio incompreendido, homem de talento desatento, autor dos
Livros “ José Berto” e “Crepúsculos” foi ainda o criador do hino do
“Lusitânia”.
Mais tarde, já aposentado, o José Berto fixou-se na ilha Graciosa. Era
fácil encontra-lo à mesa de um café, onde por vezes escrevia o que lhe vinha à
memória em simples guardanapos, ou toalhas de papel que para ali ficavam à
espera de um sortudo leitor, junto à praia ou à conversa com os amigos, de
cerveja na boca, sempre susceptível, judicioso, penteado de maresia e de barbas
pensantes estava sempre com aquele sorriso de secreta ambiguidade. Continuava
igual a si próprio: insatisfeito e contraditório, incómodo e incomodado, dotado
de uma consciência crítica e de uma visão cáustica sobre os outros,
inteligente, perspicaz e universal da vida e do conhecimento das coisas.Boémio por condão e por gosto, quando ele estava com o “astral” puxava do retumbante acordeão e animava quem o quisesse ouvir. E com ele mantinha-se longas e bem dispostas conversas vadias… Costumava ele contar episódios das turbulentas viagens que empreendera por terras americanas, bem como das tocatas em insólitas paragens das Caraíbas e Vietname – e assegurava que havia tocado para um tal D. Gergoliani, chefe da Máfia americana.
Um dia, sob o efeito de uma tremenda bebedeira, ele passou uma tarde inteira a tentar convencer os restantes que Jesus Cristo era um extra-terrestre… Depois passava por fases de alucinação satânica, ou de inquietações religiosas e metafísicas. Dizia a todos que tratava Deus por tu… E dividia os homens em cinco categorias: os boémios, os alienados, os idiotas, os cretinos e os loucos.
O José Berto tornara-se um homem cercado e atormentado, náufrago de si
próprio…
Viveu os últimos anos da sua vida misturando música com bebida, boémia,
poesia e estava a preparar um livro intitulado “Quando os Mortos Vieram
Fardados de Soldados” que não chegou a publicar devido à sua morte. Vítima da
chacota dos outros, nunca perdeu um certo sentido de dignidade. Três anos antes
de a cirrose o levar, publicou um belíssimo livro de poemas: Mar de Escamas
(edição da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo,
1997), em que fala do destino da vida humana no teatro do mundo. Atento ao
desconcerto do mundo, e questionando Deus, o Homem, a Solidão, o Ser e o
Não-Ser, o autor denuncia a falsidade, o fingimento, a hipocrisia e o egoísmo
dos homens e renuncia ao quotidiano comezinho e à trivialidade da vidinha.
Vivendo no microcosmo da ilha-mãe, o poeta parte então em busca de uma
harmonia, de um deus ex-machina, escrevendo versos certeiros que são de raiva e
ternura, de amor e ódio e questiona o triunfalismo científico.
José Berto parecia um barco velho abandonado no cais… A sua decadência
física era visível: envelhecido, a pele macilenta, os olhos baços, as longas
barbas a escorrerem cerveja, sujidade e desolação… A solidão pesava-lhe como um
fardo. Foi a sua fase negra, sórdida, macabra e grotesca. Mas não perdera a
enorme lucidez.
Era assim o José Berto – músico e poeta, um homem bom que se deixou enredar
nas vicissitudes da existência e derrapou no plano inclinado da vida.
José Berto vinha a falecer no Centro de Saúde de Santa Cruz
da Graciosa em 28 de Junho de 1999.
Mais um notável à qual a Rádio Graciosa presta aqui a sua devida
Homenagem.
Texto, adaptado, de Vítor Rui Dores publicado na revista do Diário Insular em Fevereiro de 2008.



sexta-feira, abril 13, 2012
Rádio Graciosa
