Oriolando – Brevidades sobre um carácter
Antes de completar os 70 anos, lúcido, mas precocemente envelhecido por doença que lhe tolhia os movimentos e condicionaria um dos elementares prazeres por uma boa e requintada mesa, deixou-nos no começo da primavera de 2008, um graciosense de quatro costados, que conhecia pelo nome completo os habitantes da ilha Graciosa, de agora e de antanho.
O saber que lhe veio de buscas aprimoradas das raízes familiares intuía os laços de sangue e dava ciência à nossa história. Tal atitude era uma inquietação e um fascínio, quase uma obsessão, que tomou como hobby e o levou a concluir importantes factos da ilha, como por exemplo, o de comprovar documentalmente a elevação de Santa Cruz a Vila, anteriormente a 1500, data essa, que antes se tomava como verdadeira.
Sepultou com ele muitos desses conhecimentos, ainda que, por ser frequentemente instado pela comunicação social, através de jornais, rádio e televisão dos Açores, tenha legado interessantes testemunhos.
Não era pelo seu nome extravagante que se distinguia, embora lhe bastasse o nome próprio para ser reconhecido. É certo que a profissão de solicitador judicial, que desempenhou com notoriedade e brilho, num tempo em que era preciso e lhe era permitido defender as suas gentes das teias enredadas da vida, perante uma justiça complexa e distanciadora, o fizeram levar aos caminhos dos conhecimentos da mente humana situados no meio ambiente envolvente. Evidenciava-se pelos dotes de oratória dentro das litigâncias jurídicas, sendo respeitado pelos seus pares e funcionários, como pelos Magistrados que com ele privaram, pela forma superior e inteligente com que demonstrava os factos e os harmonizava com os normativos legais.
De seu nome completo Oriolando de Sousa Machado Correia da Silva, nasceu em 6 de Novembro de 1938 em Santa Cruz da Graciosa, numa casa da família materna na actual rua 25 de Abril. Eram seus pais muito jovens.
Contava que o nome que tinha lhe escolhera o pai resultado de combinação com um amigo para dar aos respectivos filhos, nomes invulgares, desígnio que ambos honraram. Um seria Aguinaldo, ele ficou Oriolando. Cresceram os meninos amigos e vizinhos, transportando os nomes com atitude e sem desgosto. Se um era travesso, ele era comportado, e das brincadeiras de rua trazia o bibe limpo e o porte aprumado.
Fez o ensino liceal e estudou o quanto pode para lhe dar a preparação para a vida, cumpriu o serviço militar e foi auto didacta na vertente jurídica e na história, optando pelo exercício de uma profissão liberal, que exerceu até ao fim, como ganha pão.
Viveu sempre na companhia de sua mãe e irmã fazendo desse convívio, sustentáculo e abrigo, num jogo de mimos autênticos e simultaneamente cúmplices. Se os dava, não enjeitava os que recebia, sobretudo no enlevo à Mãe a retribuir a dedicação duma vida abnegada aos filhos.
Festivo e bem-humorado ele era assíduo nos convívios sociais e recreativos. Com um inconfundível registo de voz, não raro se ouvia o seu cantarolar. Gostava de se meter pela boémia, noite dentro e era dos últimos a “fechar a porta”, emparceirando jovialmente com todos, o que lhe granjeou um leque de relacionamentos de várias gerações.
Cidadão atento e participativo, generoso em emprestar os seus dotes e saber, foi orador convidado em diversos eventos culturais e sociais, como inaugurações, homenagens, ou apresentações de livros.
Foi membro destacado da Assembleia Municipal eleito nas listas do PS, ainda que nas lides políticas do pós 25 de Abril tenha simpatizado com os ideais socializantes do partido comunista. E teve muitos dissabores com essa simpatia.
A disponibilidade de participação cívica fê-lo dirigente associativo em clubes e associações, como o Santa Cruz Sport Clube, Filarmónica Recreio dos Artistas, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Graciosa e de clube de eleição, tinha o Graciosa Futebol Clube.
Foi fundador da Associação de Defesa do Património e da Cooperativa da Rádio Graciosa, entre outros.
Nas suas investigações históricas gostava do rigor, mas recusava o título de historiador. Nesse papel incessante de pesquisas ele foi co-fundador da Associação de Genealogistas dos Açores, que promoveu diversos encontros na Graciosa e sócio do Instituto Histórico da Ilha Terceira, através do qual participou no 3º Colóquio Internacional “os Açores e o Atlântico” no qual publicou um trabalho” Breves notas históricas sobre a descoberta e povoamento da Ilha Graciosa e nota biográfica de Pedro Correia da Cunha, seu primeiro Capitão do Donatário”.
Muito educado e exigente, por vezes controverso, sabia ser conciliador, com uma sensibilidade maior, a desaguar em fontes de lágrimas, se um prazer ou ofensa lhe tocassem a alma.
Perdeu-se uma personalidade com grandeza cívica.
O aqui dito não pode reflectir sobre uma vida. É um testemunho pessoal, incompleto, sem outra ambição que não seja o de afirmar, que como eu, outros mais, sentem o silêncio vazio deixado por um inestimável AMIGO, ouvinte atento e prestável conselheiro.
Graciosa, 11 de Novembro de 2011
Maria das Mercês Coelho



sexta-feira, novembro 11, 2011
Rádio Graciosa
