A inestimável presença da escola
No dia de hoje a escola Básica e Integrada da Graciosa, num convívio dirigido aos agentes do processo educativo, pretende homenagear o desempenho de duas professoras - Drª Maria de Lourdes Lobo e Floripes Cordeiro Silveira - que integraram a escola no exercício duma profissão que lhes foi ganha-pão e que deixaram por motivo de aposentação.
O mérito e o valor do desempenho na vida da escola, onde exerceram a docência, bem como o contributo que deram nos cargos de gestão, no Conselho Directivo, contabilizaram muitos laços invisíveis e o registo de sucessos ou desânimos, no emaranhado de histórias pessoais, onde pontificam generosidades, minudências ou grandezas, mas a sua acção deu e dará resultados nas gerações de alunos que formaram.
Se de vocações caladas ou expressas, se, da bitola possível duma profissão tendencialmente feminina, elas e muitas mulheres dessa geração por ela optaram, porque a escolha era então um destino adequado. Pela razão ou pela emoção, deram o melhor de si desempenhando a actividade com gosto e convicção, e por tudo isto é justo prestar uma pessoal, mas pública gratidão, que igualmente julgo nos associa enquanto comunidade graciosense, desejando-lhes felicidades na sua vida pessoal, sem minorar a possibilidade de outros envolvimentos que optem ou não por ter na vida social e colectiva.
Cabe a pretexto referir uma nota, quanto ao papel institucional da Escola, no seu inestimável contributo para melhorar a vida numa comunidade com a dimensão da nossa.
O arranque do patamar da ampliação da escolaridade aqui na Graciosa, para o então denominado Ciclo Preparatório, no ano lectivo de 1975/1976, teve entre outros requisitos, angariar o capital humano que desse corpo ao projecto arrojado, que foi arrancar a ilha da estreiteza do ensino, que começava e acabava nos quatro primeiros anos da então escola primária.
A mola humana impulsionadora dessa atitude, pertenceu especialmente à Professora Fernanda Correia de Campos Gregório, que com destreza, entusiasmo e empenhamento, fez com que a escola rompesse da letargia dos anos do ensino básico.
Abro aqui outro parêntesis que é uma dívida de gratidão.
Acho que a minha geração nunca prestou contas à generosidade de nossos pais, que nos deixaram abrir as asas para fora de casa, interrompendo a maternidade/paternidade - e como lhes deve ter sido penoso arrancar de si as suas crianças ou adolescentes - na expectativa racional de que a atitude de progredir na aprendizagem escolar, seria útil para um futuro menos aflito do que eles tiveram!
A escola que pude ter fez-me deixar os mimos de casa com tenros 9 anos de idade. Comigo, uns poucos e foram tantos e muitos mais os que ficaram, por diversos constrangimentos de ordem económica ou cultural, mas para os meninos e meninas que ficaram na Ilha, houve outros acessos conseguidos pela mão de algumas pessoas que aceitaram o desafio de transmitir os conhecimentos que já tinham capitalizado. Destacaram-se nesse papel algumas professoras do ensino primário, entre outras pessoas, que partilharam o seu tempo e as suas melhores vontades para empurrar numa formação que se impunha fazer.
É outra referência que deixo aqui como registo de justiça.
Correu o rio do tempo e pertenço à geração das pessoas que agora partem.
Olho para trás numa visão crepuscular e vejo a Ilha de há 50 anos, ilha plena, inteira e vulnerável, porque apertada no isolamento das suas fronteiras físicas, visitada semanalmente pelos navios que traziam e levavam pessoas, deixavam e transportavam bens. Tudo mais medido, mais pesado. Era o mar então a marcar os ritmos, a imensidão das águas a afirmar solenidade ou devastação, limite e sonho!
Olho bem lá ao longe, olho fundo quanto posso e reconheço as mudanças.
São as acessibilidades, e é a Escola pólo dinamizador de competências, que permitiram outras oportunidades e marcam indelevelmente a diferença possibilitando o exercício duma cidadania mais consciente, com um impacto no desenvolvimento cultural e económico da Ilha.
Graciosa, 23 de Setembro de 2011
Maria das Mercês da Cunha Albuquerque Coelho



sexta-feira, setembro 23, 2011
Rádio Graciosa