Segundo na ordem do nascimento do casal, mas o primeiro filho do sexo masculino, o menino herdou o nome do pai e aquele passo miudinho e apressado, com a cabeça ligeiramente pendente para a frente. A ele se seguiram uma mão cheia de irmãos, com quem terá brincado ou quezilado, num espaço que fervilhava de presenças e de partilhas, na casa dos avós maternos, no alto da rua das Violas. Ficou Gasparinho sempre, para os mais íntimos e para uma larga maioria da sua geração ou da anterior.
De seu, a pele clara e sardenta, um sorriso travesso - que seu filho João copiou, ao Bruno deu o feitio afável - evidenciava-se ele na determinação de que a vida é uma luta para ser abraçada de mãos seguras e abertas, e mangas arregaçadas. E sem queixumes de monta.
Em menino nunca se eximiu em colaborar nas lides da casa.
Sem padarias industriais, e havendo o hábito de cozedura do pão num dia determinado da semana nas diversas casas, havia que superar lacunas e empreender. Sem logística específica, nascia naquela casa uma confecção que assegurava na retaguarda o pão fresco que alimentaria as outras casas, fazendo disso ganha-pão para esta família. E o Gasparinho fazia os recados, levando na saquinha o pão de encomenda, tão depressa, quanto era urgente o tempo de pegar uma brincadeira de gosto ou de possível ocasião.
Uma vez, no Natal, ao bater à porta da casa de minha mãe, foi surpreendido por uma bola que rolava pelas escadas ao seu encontro, uma guloseima que aceitou com a voracidade dum encanto que nunca esqueceu. Não teria mais de 5 anos aquele menino, tantos anos como os meus, mas aquele prémio foi um talismã de simpatia que minha mãe ganhou e se prolongou até nós.
Corria, correu o rio do tempo.
O Gasparinho jovem-adulto foi trilhando o seu caminho, entre os deveres e as festividades e nestas, tocava na Filarmónica, entrou e ficou com paixão e devoção no clube Graciosa, que lhe veio da família. E aí foi chamado a dar o seu contributo. Fazia-se então a travessia dos bailes animados pelos pianos, que estavam velhos e desafinados e era preciso entrar com a moda de outros instrumentos. O Gasparinho disse presente, e era vê-lo de trompete a troar as melodias no Clube Graciosa, de salas estreitas de empréstimo, mas prontas para a festa e as mascaradas. E foi trilhando com os “Selvagens do Ritmo” até chegar ao conjunto “Ritmo 2000”, por onde foram passando diversos instrumentos e pessoas diferentes. E ele fez-se vocalista e resistiu, sem resistência dele, ou de outros.
A par disso, iniciou as suas funções como Ajudante na Farmácia Santos Costa, a única da ilha.
O serviço militar obrigatório interrompeu essa actividade, mas a experiência foi ganho que lhe serviu para idêntica missão no campo militar. Mas não foram tempos de sossego para o Gasparinho em pleno período revolucionário abrileno. Fora das horas de serviço militar, ele cumpria um part-time numa Farmácia da Av. de Roma, provavelmente com o sentido de angariar o seu pé de meia para o futuro a dois, por estar já namorado com a mulher que lhe seria companheira de vida.
Voltou sem as dores da guerra de África, cidadão de peito franco.
A Farmácia da ilha esperava-o com largos encargos e responsabilidades que tomou sem hesitações e ainda cumpria com inquestionável préstimo.
Por detrás do balcão ele estava presente, pronto a dar uma explicação, a fazer um cumprimento, a responder de forma a aliviar uma ansiedade ou dor. Fora dos horários, em situações de emergência, sempre que era preciso aviar um medicamento, em domingos ou a desoras, passava-se por casa do Gasparinho ou pelo “Graciosa”, onde ele jogava cartas, e lá ia de chave em punho, abrir a Farmácia. E a cara diligente e profissional era a mesma, donde saía uma laracha para amenizar algum constrangimento, ou eventualmente para lhe aliviar alguma raiva que geria com destreza e civilidade.
Vindo de família numerosa, ele e a Telma tiveram dois filhos, mas a militância familiar era uma constante que extravasava a nuclear e mais a genética. A pesca era também um prazer, que serviu de pretexto para encher a casa de amigos.
E o “Clube Graciosa” era a sua matriz, o seu mundo. Dele foi Presidente, presença assídua, animador incontestável e inigualável. Com o baile aceso ou quando esmorecia, ele subia ao palco, cantava as melodias com tal energia, que puxava os corpos para a dança.
Ele era chama e chamava.
Havia muito mais para contar, mas o tempo fez-se tempo e é finito.
Há no ar um soluço silencioso e já uma saudade inteira da tua ilha, que nem teve tempo de te agradecer.
À última chamada o Gasparinho disse, presente!
Diligente e pronto como sempre foi, calou-se, sem completar os 59 anos que se aproximavam.
Com o calor de verão que o viu nascer, é uma rosa amarela, que o sofrimento não desfolhou, mas que murchou.
Fica o perfume da rosa.
Graciosa, 27 de Julho de 2011
Maria das Mercês Coelho



quarta-feira, julho 27, 2011
Rádio Graciosa