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Rádio Graciosa


20 abril 2011

Artigo de Opinião de Mercês Coelho intitulado “Ter asas nas mãos”.

Ter asas nas mãos

As mãos pequeninas e gorduchas do menino, não auguravam à professora de piano um desempenho adequado àquele instrumento musical. Fosse porque as mãos dele cresceram, ou porque o piano se chegou a elas, e sobretudo, porque o esforço e o gosto puderam mais do que as aparências, o presságio não se concretizou, antes pelo contrário, fez do estudante um exímio dominador do extenso teclado, que hoje percorre com agilidade e perícia.
Falo, do graciosense Fábio Mendes, que iniciou estudos na Academia Musical da Ilha Graciosa, que amanhã completa 23 anos de existência, e que nos presenteou no passado fim de semana com um magnífico concerto, usando o piano da escola que lhe cimentou as aprendizagens de raiz.
Depois saiu da ilha para se licenciar em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade dos Açores e paralelamente avançou no Conservatório de Ponta Delgada, a graduação na área musical.
Com as asas fortalecidas pelas aprendizagens feitas, rumou a mais largos horizontes, fixando-se no Continente, para se dedicar inteiramente à música, leccionando e aperfeiçoando técnicas em cursos da especialidade, ao mesmo tempo que concorre nos mais diversos certames. Como se tudo isso não bastasse, os seus objectivos muito próximos são a concretização dum Mestrado, que prepara sob a orientação de conceituados nomes da música.

O concerto que nos ofereceu integra peças do repertório de compositores de renome do séc. XIX, uma vez que a temática do seu trabalho de investigação é a influência do liberalismo em Portugal no período da I República. Fábio Mendes propõe-se apresentar essa caracterização, situando a existência e o desempenho do piano na época, nesta Ilha Graciosa.
Sabemos que existem muitos pianos – cerca de 70 -, na sua maioria inactivos ou desafinados em casas particulares ou em Instituições públicas ou privadas, número consideravelmente elevado tendo em conta o nível sócio cultural dos habitantes duma ilha com a dimensão desta.

Do estudo do nosso jovem investigador, muitas mais descobertas, factos e curiosidades esperamos em breve ter partilha. Do assunto, em conversa privada e informal, nos fala, com conhecimento e entusiasmo, acentuando a sua surpresa na verificação da qualidade de alguns pianos que encontrou, da avaliação do número de executantes que lhe dedicaram tempo, e da análise de outros factos interessantes.
O nosso património ficaria muito enriquecido com a publicação deste trabalho, em livro, tal como o Fábio Mendes ambiciona fazer.
Desejamos-lhe as maiores felicidades e acreditamos no êxito que terá na defesa desse trabalho, aguardando com expectativa o valioso contributo para o enriquecimento da nossa identidade cultural.

Tem a Academia natural orgulho neste ex-aluno, mas não esgota nele os seus méritos. Impulsiona outros valores que perseguem nas artes os seus desempenhos e que fazem dele pão. Outro o tempo para falar de outros.

Dizem da Graciosa que tem propensão para a musicalidade. Seja pela tendência em arrumar ventos ou por sentir de perto o marulhar, seja para exorcizar a solidão de pouca terra pouca gente, o convívio é uma componente inerente à nossa forma de viver.
A Academia Musical protagoniza um importante contributo para o despertar de valores e resistirá às adversidades do actual momento que atravessa, como nós suportamos as tempestades e os cataclismos. Edificando, reconstruindo e teimando em ficar.

Graciosa, 13 de Abril de 2011
Maria das Mercês Coelho

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