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Rádio Graciosa


09 fevereiro 2011

Artigo de opinião de Mercês Coelho.

Águas novas



Rodeadas de mar, as ilhas não terão escapado às modas de que as águas frias salgadas, não deveriam ser usadas sem o devido resguardo, nem o corpo se deveria expor ao calor do sol e ainda menos a olhares cobiçosos de intimidades. Sem fontes de água doce corrente, a ilha Graciosa teve que se socorrer de artefactos para a extrair das entranhas da terra, sendo a introdução nos consumos domésticos e a vulgarização nos hábitos de higiene, da nossa história muito recente.
Um bem essencial à vida humana, a água, ao longo dos tempos tem sido alvo de muitas preocupações, desde as de ordem económica às ambientalistas, ou outras, estando mesmo reportada em registos lendários.
É assim que recordamos a lenda que relata das qualidades surpreendentes na cura de um animal, depois de ter bebido águas numa fonte existente no lugar do Carapacho. Perde-se pois na noite dos tempos o conhecimento das propriedades das águas que hoje alimentam as Termas do Carapacho.
Uma pesquisa mais minuciosa deveria concluir do porquê da data e dos motivos daquele grupo homogéneo de gente bem vestida, de mulheres, homens e crianças, à porta lateral das Termas do Carapacho, sendo que no verso daquela fotografia, escrito com caligrafia cuidada, consta a menção de “Águas Novas” e a data de 25 de Julho de 1909.
É evidente que se trata de algum acontecimento notável, atrevendo-me a conjecturar que se trata da inauguração daquele edifício, já que os finais do séc. XIX e inícios do séc. XX, foram a época áurea do termalismo, também coincidente com a introdução dos rituais do banho que transversalmente se foi impondo na cultura portuguesa.
Fontes credíveis sustentam que as propriedades medicinais daquelas águas remontam a 1750, directamente relacionadas com um aquífero subjacente à Furna do Enxofre, caracterizando-as como cloretadas, hipersalinas, cálcicas, sulfatadas e muito ricas em sais de magnésio. Os seus efeitos terapêuticos eram aconselhados nos tratamentos de reumatismos, colites, doenças de pele e de fígado.
O arquitecto Jorge Mangorrinha, um estudioso e premiado autor na área do termalismo, refere que “as populações tomaram conhecimento das propriedades terapêuticas das águas emergentes, experimentando e difundindo os efeitos que as mesmas lhes faziam, ou pelo menos o seu poder de transformar as circunstâncias, os sentidos e as sensações, enfim, o sofrimento, em descanso”. Segundo o mesmo autor só em 1892 em Portugal, se protegem as águas minero-medicinais com um enquadramento legal, orientando as suas concessões para fins medicinais.
Depois de um período de decadência do aproveitamento desses recursos, nos nossos tempos, as termas readquiriram um valor económico expressivo, nomeadamente incluído na vertente de exploração de um turismo próprio, quer pelos efeitos terapêuticos, quer resultado do culto do físico ou da alma, referenciados a um estilo de vida mais ou menos sedentária.
Com obras de requalificação profundas, o primitivo edifício das Termas do Carapacho reabriu portas em 2010, com uma ampliação que lhe permitiu a valorização de novas valências, compatíveis com uma oferta digna dos tempos modernos, que incluem diversos tratamentos de banhos de águas, desde a piscina, que associa a imersão e o exercício, a outras vertentes de relaxamento diversificadas, com ou sem acompanhamento de técnicos habilitados para o efeito.
Investimento do Governo Regional, as termas foram concessionadas à sociedade “Janelas da Natureza” por um período de 3 anos, eventualmente prorrogável, entidade que tem o desafio de dinamizar o que vulgarmente é traduzida pela sigla SPA, que advém duma expressão latina que significa “saúde pela água”.
Saibamos dar o uso e o proveito da bondade deste bem em nosso próprio proveito e fica o desejo que o mesmo possa proporcionar um acrescido atractivo a quem nos visita.

9 de Fevereiro de 2011
Maria das Mercês Coelho

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