Manuel Picanço de Melo nasceu a 28 de
Agosto de 1939 no lugar de Manuel Gaspar, Freguesia de Guadalupe, concelho de
Santa Cruz da Graciosa, Filho de Manuel Lucas de Melo e de Clotilde Isabel
Picanço, casal de agricultores que teve 2 filhos.
Manuel “carcereiro” como é popularmente
conhecido, ingressou na escola da Ribeirinha, onde concluiu o ensino primário,
ao mesmo tempo que ajudava a família nas lides agrícolas.
A 3 de Abril de 1960 vai para a tropa,
cumprir no BII/17, em Angra do Heroísmo, o serviço militar obrigatório.
Manuel Melo fazia parte do 1º contingente
português a chegar a solo angolano no dia 14 de Maio. Este contingente era
composto por 4 mil e 500 soldados e 600 polícias.
Assim começava o seu serviço no então
Ultramar Português. Foram anos de muito desgaste físico e emocional, durante
meses a fio viveu apenas de ração de combate, com um clima muito quente e
sempre em situação de grande perigo. Manuel Melo afirma hoje que naquela altura
eram todos jovens de 19 e 20 anos, que tinham sobretudo muito medo, mas também
espanto ao ver em acção todo o arsenal de guerra que nunca tinham presenciado,
desde barcos a aviões militares.
Em 1962, estava o seu pelotão em Bessa
Monteiro, em plena operação nocturna, quando se deparou com num grupo inimigo,
que logo abriu fogo. Manuel Melo e os seus companheiros correram para se
abrigar na mata e deparou-se com um homem ferido, era o seu comandante que não
tinha reconhecido no escuro da noite. O Comandante de Manuel Melo tinha apanhado
um tiro na coxa e Manuel levou-o nas suas costas, enquanto rastejava para um
lugar mais seguro, do lado contrário de uma colina. Os seus companheiros
chegaram primeiro e ao notar pela sua falta voltam ao seu encontro e então no
percurso final, ajudam-no a carregar o comandante ferido. Manuel Melo rasgou a
bainha da sua camisa, utilizando esse pedaço de fazenda para fazer um
torniquete na perna do ferido e assim estancar hemorragia. Este acto valeu-lhe
uma condecoração, através de um louvor e medalha pelo seu acto heróico.
A 14 de Maio de 1963, recebe da mão do seu
comandante, o homem a quem tinha salvado a vida um louvor, pelas “provas de
muita coragem, sangue frio, valentia e elevado espírito de sacrifício que
sempre demonstrou em várias operações, batidas e patrulhas, em que tomou parte,
quando da estadia da sua subunidade no Norte da Província” de Angola.
Manuel Melo foi condecorado por ser um
“Militar aprumado, correcto, disciplinado e disciplinador, dentro das suas
funções de Comandante de Esquadra, granjeou desde o início o respeito e estima
dos seus camaradas e admiração dos seus superiores”. Pode ainda ler-se no
louvor os locais onde passou em serviço, foram eles: Zaire, Sumba, Pedra do
Feitiço, Quinzau, Noqui, Luvo, Ambriete, Tomboco, Bessa Monteiro, Quibala,
Mongatombe, Loge e Luanda.
A 4 de Julho de 1963 sai de Angola,
terminado o seu serviço ao país. Chega a Graciosa a 28 de Julho de 1963 e
Manuel Melo e os outros combatentes graciosenses são recebidos sãos e salvos,
numa grande festa no Guadalupe.
Manuel Melo sofreu de stress de guerra e
durante muitos anos nunca falou sobre o que passou em Angola. Não gostava
sequer de ouvir falar em Angola e só muitos anos passados, desta experiência
terrível de guerra, é que começou a falar da experiência que teve, que o marcou
para toda a vida, tal como aos outros combatentes.
A 11 de Julho de 1965 casou com Maria
Clarinda Espinola Picanço, com quem teve 2 filhos.
Durante o tempo em que esteve a trabalhar
fora da ilha, manteve sempre com ajuda de mulher e de outras pessoas, uma
exploração de gado. Quando estava na Graciosa tinha ainda uma barbearia na
Praça Fontes Pereira de Melo.
Manuel Melo, hoje com 74 anos, faz ainda
por lazer alguns serviços de barbearia a amigos, mas o seu tempo é dedicado
exclusivamente à mulher e aos poucos trabalhos de agricultura que desenvolve
atrás de casa, com criação de animais domésticos.
A reforma, goza-a da melhor forma ao lado
da mulher, mas sem esquecer o que passou, os marcos que a guerra deixou na sua
vida, recordando ainda hoje com emoção o lema “Antes morrer livres, que em paz
sujeitos”.
Mais um Graciosense notável que a Rádio
Graciosa homenageia.



sexta-feira, maio 17, 2013
Rádio Graciosa