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Rádio Graciosa


17 maio 2013

Notável desta semana é Manuel Picanço de Melo




Manuel Picanço de Melo nasceu a 28 de Agosto de 1939 no lugar de Manuel Gaspar, Freguesia de Guadalupe, concelho de Santa Cruz da Graciosa, Filho de Manuel Lucas de Melo e de Clotilde Isabel Picanço, casal de agricultores que teve 2 filhos.
Manuel “carcereiro” como é popularmente conhecido, ingressou na escola da Ribeirinha, onde concluiu o ensino primário, ao mesmo tempo que ajudava a família nas lides agrícolas.
A 3 de Abril de 1960 vai para a tropa, cumprir no BII/17, em Angra do Heroísmo, o serviço militar obrigatório.
Em 1961 estoura a Guerra Colonial e a 20 de Abril desse ano vai para Lisboa ter formação e a 5 de Maio embarca no Cais de Alcântara em Lisboa, rumo a Angola.
Manuel Melo fazia parte do 1º contingente português a chegar a solo angolano no dia 14 de Maio. Este contingente era composto por 4 mil e 500 soldados e 600 polícias.
Assim começava o seu serviço no então Ultramar Português. Foram anos de muito desgaste físico e emocional, durante meses a fio viveu apenas de ração de combate, com um clima muito quente e sempre em situação de grande perigo. Manuel Melo afirma hoje que naquela altura eram todos jovens de 19 e 20 anos, que tinham sobretudo muito medo, mas também espanto ao ver em acção todo o arsenal de guerra que nunca tinham presenciado, desde barcos a aviões militares.
Manuel Melo nunca se feriu e do grupo de graciosenses, que com ele cumpriram essa missão, apenas um sofreu um ferimento ligeiro.
Em 1962, estava o seu pelotão em Bessa Monteiro, em plena operação nocturna, quando se deparou com num grupo inimigo, que logo abriu fogo. Manuel Melo e os seus companheiros correram para se abrigar na mata e deparou-se com um homem ferido, era o seu comandante que não tinha reconhecido no escuro da noite. O Comandante de Manuel Melo tinha apanhado um tiro na coxa e Manuel levou-o nas suas costas, enquanto rastejava para um lugar mais seguro, do lado contrário de uma colina. Os seus companheiros chegaram primeiro e ao notar pela sua falta voltam ao seu encontro e então no percurso final, ajudam-no a carregar o comandante ferido. Manuel Melo rasgou a bainha da sua camisa, utilizando esse pedaço de fazenda para fazer um torniquete na perna do ferido e assim estancar hemorragia. Este acto valeu-lhe uma condecoração, através de um louvor e medalha pelo seu acto heróico.
A 14 de Maio de 1963, recebe da mão do seu comandante, o homem a quem tinha salvado a vida um louvor, pelas “provas de muita coragem, sangue frio, valentia e elevado espírito de sacrifício que sempre demonstrou em várias operações, batidas e patrulhas, em que tomou parte, quando da estadia da sua subunidade no Norte da Província” de Angola.
Manuel Melo foi condecorado por ser um “Militar aprumado, correcto, disciplinado e disciplinador, dentro das suas funções de Comandante de Esquadra, granjeou desde o início o respeito e estima dos seus camaradas e admiração dos seus superiores”. Pode ainda ler-se no louvor os locais onde passou em serviço, foram eles: Zaire, Sumba, Pedra do Feitiço, Quinzau, Noqui, Luvo, Ambriete, Tomboco, Bessa Monteiro, Quibala, Mongatombe, Loge e Luanda.
O tempo de guerra era de muita preocupação para a família na Graciosa, escreviam cartas e aerogramas, com uma regularidade que podia ser de 15 dias ou de 1 mês. Numa certa altura teve muito tempo sem contactar a família e a namorada, o que gerou muita preocupação, até que alguns dias depois outro combatente manda notícias e ai souberam que Manuel Melo não tinha morrido, como a família tinha chegado a temer.
A 4 de Julho de 1963 sai de Angola, terminado o seu serviço ao país. Chega a Graciosa a 28 de Julho de 1963 e Manuel Melo e os outros combatentes graciosenses são recebidos sãos e salvos, numa grande festa no Guadalupe.
Manuel Melo sofreu de stress de guerra e durante muitos anos nunca falou sobre o que passou em Angola. Não gostava sequer de ouvir falar em Angola e só muitos anos passados, desta experiência terrível de guerra, é que começou a falar da experiência que teve, que o marcou para toda a vida, tal como aos outros combatentes.
A 11 de Julho de 1965 casou com Maria Clarinda Espinola Picanço, com quem teve 2 filhos.
No ano seguinte ,tomou posse como carcereiro do Tribunal da Comarca de Santa Cruz da Graciosa e é daqui que nasce o apelido de “Manuel Carcereiro”, porque desempenhava essa função. Nesta profissão de guarda prisional, é depois transferido de Santa Cruz da Graciosa e presta serviço nos estabelecimentos prisionais de Angra do Heroísmo, Ponta Delgada e em Cachias. Em Julho de 1983 e cansado de estar longe da família, pede uma licença sem vencimento e volta à Graciosa. Nessa altura arranja trabalho no Centro de Saúde de Santa Cruz da Graciosa, como condutor. Reformou-se em 1997, com 58 anos de idade.
Durante o tempo em que esteve a trabalhar fora da ilha, manteve sempre com ajuda de mulher e de outras pessoas, uma exploração de gado. Quando estava na Graciosa tinha ainda uma barbearia na Praça Fontes Pereira de Melo.
Manuel Melo, hoje com 74 anos, faz ainda por lazer alguns serviços de barbearia a amigos, mas o seu tempo é dedicado exclusivamente à mulher e aos poucos trabalhos de agricultura que desenvolve atrás de casa, com criação de animais domésticos.
Manuel Melo participa quase todos os anos nos encontros do BII17 em Angra do Heroísmo e também no continente, onde revê os colegas e é um grande amigo do seu antigo comandante, a quem salvou a vida.
A reforma, goza-a da melhor forma ao lado da mulher, mas sem esquecer o que passou, os marcos que a guerra deixou na sua vida, recordando ainda hoje com emoção o lema “Antes morrer livres, que em paz sujeitos”.
Mais um Graciosense notável que a Rádio Graciosa homenageia.
 

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